Samira – Degustação

 

outono de 1975

Era enfeitiçado pela Samira.

Vidrado desde que leu um poema de Malba Tahan no dias dos professores.

Edgard tinha tentando namorar com ela. Tomou um fora do tamanho da Arábia.

Negrãozinho nem começou dar o plá e levou um alaúde no meio dos olhos!

Eu, gamado, fazia cara de esfiha e ficava de longe moitando.

Até que a Ivone fez a mumunha: Samira gostava de mim!!

Logo depois no bailinho da Ana Paula, pedi para dançar com ela.

Ela aceitou!!

Depois da segunda lenta, sussurrei sobre um namoro nosso.

Ela, firme, disse que ia pensar.

— Quando?

— Amanhã.

 … e na tarde seguinte estávamos andando de mãos dadas pelo bairro.

Foram mais de quatro meses de namoro na sala, conversas boas e muitas bitoquinhas. Kibes no lanche da tarde.

Mais de quatro meses de festinhas, musicas lentas, samba rock e abraços no portão. Dança do ventre.

Mais de quatro meses de mãos dadas, dois beijos de linguá e uma leve passada de mão nos peitinhos. Tombak

Ela ficou caidinha.

Eu, apaixonado.

Mas a turma exigiu a execução

— Menina de família, não dá.

— Você viu o pai dela?

— Grande mas não é dois.

— Não vou.

— Você não é homem?

— Sou.

— Duvido!

— Sou …

— Duvido!!!

— Sou, mas …

— Prove.

Fui  obrigado aplicar o babado federal.

Dias cabreiro. Não falava nada. Só ela.

Outros ficava grilado. Apenas gemia.

— Que foi meu halawi?

— Num sei se você me ama mesmo!

— Como?

— Num sei…

A milonga foi lançada

— Preciso de uma prova do seu amor por mim.

— Que prova, meu basbusa de leite condensado?

— Você sabe: a prova.

Mais alguns dias fingindo encafifado até que ela cedeu.

Deu. Capotei na varanda. Desflorei a margarida. Comi a Samira !!!

— Ela era cabaço, minha gente!!!!!

— Num falei??

Emborquei muito a Samira. Tirei todos os tampos. Na casa dela, nos fundos, atrás da escola, na rua, na chuva e na casa de praia de um tio dela.

Eu estava enamorado pela Samira

Ela gostava da nossa quizumba.

Eu suspirava.

Ela sempre dizia que eu tinha a lâmpada mágica.

Domingo depois da salada de grão de bico e pimentões verdes, do kibe cru e do bazin com carne e quiabo, Samira desvendou seu esquema: ficaríamos noivos depois do colegial. Terminado o meu tiro de guerra, a gente ia casar, com lua de mel em Campos do Jordão. Moraríamos em uma casinha que o pai dela tinha na rua de baixo e eu trabalharia na loja de tecidos do tio dela.

Fiquei grilado. Não gostei. Falei na fuça dela!

— Não.

— Por que?

— Porque não!!

Ela chorou. Pediu desculpas. Disse para eu esquecer as nossas mil e uma noites de felicidades.

Dias sem nenhuma bitoquinha.

Dias sem nenhum abraço.

Dias sem mãos dadas.

Cedi.

Comecei a pensar diferente. Até era legal! Era isto: vou me casar!

Contei feliz para a patota.

— Biruta?

— Não!

— Tonto?

— Não …

— Bundão?

— Não, mas …

— Vamos dar um jeito nisto, já!

Minha tarefa era me atrasar no sagrado encontro de sábado

— Inventa!

— O que??

— Vó ou mãe doente, pronto.

Fui devagar para a casa da Samira. Macambúzio. Sem vontade. Nó nas tripas.

Deparei com ela conversando com o Edgard na varanda. Os dois muito perto. Juntinho. Quase beijando.

Relaxei os ombros.

Respirei curto várias vezes.

Desarrumei a camisa e gritei.

— Me traindo?????

Ela pulou. Gritei mais alto, o pai dela não ouviu.

— Sua traidora!!! Dando uns amassos, nele?

Saiu pai, mãe e um primo tonto que estava lá.

— Mín heda?

— Meu senhor, ela estava beijando ele!

Samira chorava.

Edgard fazia cara de coalhada.

Eu bufava.

Os pais perguntaram se era verdade.

— Não nunca …

— Bem … um pouco …

— Como um pouco?

— Ela que quis me beijar …

Bastou para o pai meter um tabule na cara dela. Voou no tapete.

A mãe chorava e me pedia desculpas.

O primo ria baixinho.

— Habib? — dizia ela para mim, enquanto era arrastada para dentro

— Perdoar eu posso perdoar … mas esquecer nunca.

Saí dali e fui comemorar com a turma

Joguei muito pebolim e  bilhar.

Ganhei na cacheta e o truco.

Depois me arrependi sozinho no meu quarto.

Nunca mais consegui passar em frente a uma loja de tecidos sem chorar!

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