Do outro lado

cano-da-arma

A minha esbornia carnavalesca acabou assim que o camarada enfiou o revolver na minha boca.

Estou de joelhos.

Vomitado.

Mijado e agora cagado.

Sóbrio e lúcido.

Em pânico!

O pilantra diz que estou devendo uma dinherama para ele.

Diz que fiz muitas sacanagens.

Diz que trai a confiança dele.

Diz que peguei um óculos escuros dele e não devolvi.

O pilantra afirma que mereço ser comido a bala.

A mira machuca o céu da minha boca.

O parceiro fala outras coisas que fiz e que não me lembro.

Devo ter feito mesmo!!

“Tá bom”. “Mete bala, logo”. “Alô, iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer. À noite com os seus sortilégios”. “Senta o dedo! Não tenho nada de que me arrepender!!”.

Não.

Tenho.

Tenho sim.

por amor e não morrer de inveja…devia ter me importado menos com os grandes problemas… devia ter engolido e não cuspido… devia ter mentido muito mais e não sido tão sincero… devia ter metido uns tiros e não tentado dialogar… devia nunca ter contado a verdade e não achar que tinha um coração de pelúcia… devia ter rezado menos e não me achar filho de Deus… devia ter sabido que tudo acaba e não achar que ficaria jovem para sempre… devia ter tentado tocar o banjo norueguês e não gaita africana… devia ter traído mais e não ter sido honesto com ele… devia ter usado um terno alpine e não um ver… devia ter dado um chute nela e não achado que iria passar… devia ter “abduzido” muito mais a Darcília e não somente marcar posição… devia ter amaciado mais e não lavado tanto a seco… devia ter ansiado mais e tomado menos Maracujina… devia ter assistido mais os Concertos para a Juventude e não o Zás-Trás… devia ter batido mais punheta e não me metido em com tantos acarajé de pelo… devia ter chorado menos e não me achado sensível… devia ter comido muito a bunda do Boaventura e não achar que ele fosse mudar… devia ter complicado muito mais e não facilitado para ela… devia ter cuspido e não vomitado… devia ter devolvido tudo na mesma moeda, não em peso uruguaio… devia ter entrado menos e não saído mais… devia ter feito direito como o meu pai queria e não Teatro… devia ter ficado menos contrariado e não contrariado tanto… devia ter ficado somente vendendo camisetas do Che não do Fidel… devia ter ido atrás da minha paixão pelo Sean Connery e não esperar que ela viesse atrás de mim… devia ter iniciado depois e não em cima da hora… devia ter mastigado mais e não engolido inteiro… devia ter matado de limão… devia ter voltado quando a Maria chorava e não achar que era frescura… devia ter vomitado e nunca engolido… devia voltar a comer brigadeiro de amêndoas todas as terças feiras.

— Então vamos lá, Severino.

Quem é Severino?

— O seu nome não é Severino?

Respondo mas ele não entende. Não está acostumado a ouvir alguém falando com um revolver na goela.

— Sei que há muito Severino, que é santo de romaria. Procuro Severino de Maria?

Respondo que não sou.

— Tá… sei… como há muitos Severinos com mães chamadas Maria. Você é o Severino da Maria do finado Zacarias?

Arranca o revolver da minha boca e quase leva meus incisivos.

— Não.

— Não?

— Não…

— Desculpe… foi engano…

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