2000

 1UneFoto de Christiano Diehl Neto

Quatro semanas antes:

Roberto queria que eu matasse a Silmara.

Afirmou que eu, por ser o maior filhodaputa, sacana e morfético que ele conhecia e a pessoa que mais lhe devia favores: tinha que fazer.

Deveria que deixar a desgraçada nua, com os pés amarrados com o sutiã e as mãos com a blusa. Usasse a calcinha para enforca-la e enfiar as outras peças onde desse. Se tivesse na gana podia dar uma traçada nela, mas com camisinha para não deixar vestígios.

Três semanas antes:

Na praça perto do trabalho do Roberto.

Perguntei qual o motivo do pedido, não que eu estivesse recusando, mas queria saber por que ele tinha encomendado aquela tarefa. Além de que tinha sido eu que os apresentará.

Comendo um hotdog, ele contou que por mais de quinze anos, nunca tinha desconfiado de nada. Podia até se jogar no fogo de tanta confiança nela. Mas há quatro anos atrás, ele, perto da Praça da Sé, foi abordado por duas ciganas. Que naquele golpe de ler a mão, elas lhe disseram que era traído.

Achou bobagem. Mas começou olhar a esposa com outros olhos.

Ela o tratava muito bem.

Cuidava da casa.

Três filhos e trabalhava fora.

Sempre saia no mesmo horário e voltava também. Aparentemente não fazia nada que a desabonasse.

Nunca negando sexo, mesmo quando ele não podia.

Era perfeita. E isto que o encafifou. Era perfeita demais!

Achando que precisava de outras opiniões.

Consultou o horóscopo Asteca que desvendou que ele sofria de uma infidelidade crônica.

I – Ching exibiu que a deslealdade dentro do seu lar era líquida e certa. Talvez só mais novo era filho dele.

Pai de Santo decretou que a hipocrisia estava na sua cama, mesa e no banho.

Tarô desembraralhou que sofria de uma perfídia doméstica e que as duas mais velhas não eram filhas dele.

Desesperado e conformado, passou a segui-la.

Nada encontrou.

Colocou um detetive atrás, nada.

Ela era boa demais!

Duas semanas antes:

Depois de Roberto ter assistido a uma peça que eu produzia na época, “Sono Eterno”, confirmou a quantia que me ofereceria pelo trabalho.

Contou entre uma linguicinha e uma pinga, que havia feito um belo seguro de vida para os dois e que receberia uma dupla indenização caso ela fosse assassinada.

Pedindo uma pizza no palito, como quem não quer nada, relembrei de como os apresentei.

Foi no congresso da UNE em Piracicaba. Quando as luzes apagaram, por que o XV tinha perdido. Eu o tinha agarrado e puxado para não cair e ele bateu a cabeça no joelho dela.

Pedindo duas bem geladas, rememorei quando ele falou para a filha mais velha que teria “a irmãzinha”.

Fiz ele chorar. Reafirmando se eu fizesse seria um longo adeus para todos nós.

Enxugou duas canecas. Prometeu me pagar adiantado se fizesse um dia depois do aniversário de casamento deles. Topei.

Uma semana antes:

Na padaria, pedi que falasse mais baixo.

Tomei um café sem açúcar e um pão com manteiga sem miolo. Ele pagou e fomos andar no parque.

Durante uma corrida longa, ele falou que eu estava demorando muito.

Em uma intervalada, afirmou que ela cada dia estava mais amorosa e dedicada.

Na de tempo, confidenciou que deveria estar aprontando alguma.

Na de progressão, cobrou que já tinha pago o adiantamento e nada tinha ocorrido. Faltava dois dias para o aniversário de casamento.

Na de recuperação, pedi mais alguns cobre para as despesas diárias.

Fez um cheque.

Seis dias antes:

Deixei um recado com o porteiro do prédio que fui até ali e já voltava.

Cinco dias antes:

Fui o último que chegou para a festa de aniversário-surpresa que Silmara fez para o Roberto.

Ela preparou um vídeo, trabalho de mais de mês, com amigos e parentes falando de maravilhas do Roberto.

Como ele era legal.

Como era fiel.

Como era único.

Bebemos. Cantamos. Dançamos e a Silmara ganhou apenas um broche de presente.

Quatro dias antes:

Estava saindo do banco quando soube que o Roberto pulou do prédio em que morava. Pulou nu, depois do café. Silmara afirmou para todos os jornais, que há muito tempo ele andava estranho. Distraído, meio de baixo astral e duplamente brocha.

Três dias antes:

Depois do velório simples. Fomos todos ao boteco e bebêramos em homenagem ao falecido.

Lembrei a todos as piadas sem graça de Roberto e como ele amava a família.

Dois dias antes:

Apesar do cerco, a Silmara conseguiu fugir para o litoral. A polícia demorou muito para chegar. A mulher com o sexto sentido percebeu e se escafedeu com uma peruca ruiva. Filhos ignoram o paradeiro.

Um dia antes:

Não coloquei fogo nas fitas originais que gravei do pedido do Roberto e da revelação para a Silmara.

Guardei, vai que a polícia perca, a fita em que ela me pede para dar um jeito no marido, pois sou o maior filhodaputa, sacana e morfético que ela conhecia. Que deixasse o desgraçado nu, com os pés amarrados com a gravata e as mãos com camisa. Usasse a cueca para enforcá-lo e enfiar as outras peças onde desse. Se tivesse na gana podia dar uma traçada nele, mas com camisinha para não deixar vestígios.

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