Assim caminha a humanidade

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I 

Ele me arreganha.

Escuto o silencio dele se enfiando em mim.

 

II 

O Mercedes-Benz 710 Vermelho aponta logo da curva. Renova a esperança. Dedo mais para cima. Passa “jameshunt”. Para com derrapada. Corro.

— Garoto, tá fugindo do que? — o motorista tem cara, jeito e trejeito de se chamar Carlos

— De nada senhor, tô apenas querendo economizar a passagem. — Um “Carlos” de cabelos ralos e olhos miúdos opacos.

— Vai pra onde?

— Tô indo em frente, aproveitar as férias. Posso subir? — “Carlos” dá um sorriso pequeno e eu entro.

— É de maior?i? — pilantra fala igualzinho ao meu pai. Deve ser falso como

— Sou não, tem problema?

— Problema é seu …

— Para onde o senhor vai? — coloco minha mochila cheia de mágoa entre as minhas pernas.

— Vou até a divisa norte do estado, mas tenho que umas paradinhas. Entregar a minha mercadoria.

— Vou junto. — é um jeito de dar uma volta. Dar um tempo da vida de casa, tempo de meus pais, das minhas coisas e aproveitar o acaso.

 

III

Antes da parada para o almoço, ele me conta sobre o filho mais novo que quer servir o exército e sobre a filha mais velha, que é professora, e vai lhe dar um netinho no meio do ano.

Eu minto sobre a minha vida.

Xepa de pedreiro. Devoramos duas montanhas alagadas por um refrigerante local. Dá um sono dos infernos!!!!

De volta na estrada e ao falatório.

Ele determina que para o Coringão ser campeão tinha que mudar o técnico, que a morte do Juscelino foi coisa mandada, que o livro “Pequeno Príncipe “ ainda o deixa emocionado e que quando está para chover o seu queixo treme.

Minhas pestanas parecem de cimento, caiem várias vezes.

Babo.

Quando ele pausa para respirar, adormeço

Cidade onde “Judas-lixou- o-calcanhar” paramos para descarregar.

Ele me fala, enquanto descarregamos, sobre: avareza, bomba injetora, cancro, candidíase, capa seca do motor, caridade, carne seca, Chinatown, Colosso de Rodes, diligência, Estátua de Zeus, Estranho no Ninho, generosidade, gonorreia, gula, humildade, inveja e inversão,

No fim até minhas orelhas doem.

Jantei pouco e depois arranjei um cafofo para dormir na carroceria.

 

IV 

Grosso, rasgando, pesado e arrombando.

Sai e volta. Vai e entra.

 

V

Dia quente de estrada.

Desembarques que nunca acabam.

Meu coração e cérebro doem de cansaço.

Depois da janta, dou um volta, sozinho, pelo lugar.

Instintivamente chego na zona. Em conversa rápida contrato um putinha vesga bem baratinha.

“Carlos” aparece quando ela ia começar me fazer. Desfaz o trato e me puxa dali.

— Roubada menino!!

Fico tocado com a preocupação dele. Com o cuidado.

Ele me conta sobre os Jardins suspensos da Babilônia, luxúria, Meu ódio será a sua herança, modéstia, motor, O Poderoso Chefão, Operação França, paciência, pedal freio, pederastia, preguiça, Psicose, sífilis, soberba e temperança,

Antes de dormir finjo que sou filho dele. Vou ser um general!!!

 

VI

Tem hora que escapa. Ele afina a ponta e vem.

Forte e fraco. Violento e tímido

Apressado e se deliciando.

Em mim.

 

VII

Na estrada todo dia fica igual, só mudam as placas.

Tarde de muitos descarregamentos e a noite uma janta local.

— Num bebo não senhor.

— Experimenta, você já ta um homem.

A pinga fez a minha boca ficar mole.

Falei que estava feliz em viajar com ele. Que é “pá legal”.

Ele agradece e não me encara.

Pergunto por que ele não fala da esposa.

Pausa constrangedora: Diz que ela o deixou.

Calo o bico.

— Desculpa …mas mesmo assim você é muito maneiro!!

Meio da noite, meio da ressaca, meio tarado e meio pensando na biscatinha precisei descascar a mandioca.

Ajeitei e fiz justiça.

No jorro percebo que ele me olha.

Vergonha!!

Limpo a mão na minha blusa e finjo que durmo.

 

VIII

Enfia os dentes em meu ombro. Sinto o saco dele no meu.

Ele me vira, me beija e me entrego.

Ele me gira, me come e eu excito.

 

IX

Dia de estrada igual até nas placas.

Falo que ficarei na parada da noite. Minto que tenho uma tia naquela cidade. Quero pensar não carregar.

Antes da janta. Uma chuveirada ligeirinha para tirar a lama do corpo.

“Carlos” entra no primeiro box e eu vou para o ultimo, perto da janela.

Todo ensaboado sinto uma pancada nas costas: Murro.

Sou jogado contra a parede. Dor. Encolho.

Murro na orelha, sabão nos olhos e de novo jogado. Encolho mais.

Puxa meu cabelo. Estico e fico grudado na parede.

— Amigo, eu me desesperava …

Tento sair e ele me cabeceia na parede. Passa muito mais sabão dentro da minha bunda

 

X

Reviro e vejo a minha merda no pau dele.

Ele me vê intumescido.

Sorri e me força ver a sua punheta. Goza da minha barriga.

Broxo.

Enquanto ele me banha pede desculpas.

Lava as minhas costas e chora de soluçar.

Limpa minhas dobras e implora o meu perdão.

Diz que me ama

— Esta história não acaba aqui — digo depois de um longo beijo de despedida.

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