Que Ziembiński me perdoe

Ziembiński

Cacilda!

Becker! Esqueci o meu texto!

Completamente!

Entrei naquele momento em que não sei mais quem eu sou. O que sou e nem onde estou.

O que estou fazendo aqui e cadê a minha mãe?

Bem, minha mãe está na terceira fila ao lado da minha irmã. Com aquela expressão: “Meu filho é artista!”.

Já minha irmã, tem a outra: “Você é uma mariposa!”.

Caralho! Não lembro!

Depois de tomar coragem e fazer um teste para um grupo teatral.

Depois de topar imaginar ser uma sementinha que cresce, vira uma árvore pequena que quase é devorada por um ruminante qualquer, que fica frondosa, que resiste à chuva e ao vento e até ao fogo, mas não resiste ao machado do lenhador…

Lenhador?!?! Tem algo a ver com isto: lenhador…

Deixa eu ver…

Lembrar…

Não lembro.

Ensaios na tarde, nas noites e na madrugada, onde os deuses dos teatros abençoam os artistas.

Relaxo: imagino uma bola azul tomando o meu corpo, começando pelos pés, depois tornozelos, coxas, virilha, tórax, meus braços… nunca consegui passar desse ponto acordado.

Em seguida, uma viagem incompreensível de Genet a Brecht.

De Shakespeare a Aluísio de Azevedo e não compreender nada.

Nada além de que a loirinha que tem uma cruzada de pernas federal!!

Já a mulher mais velha que tem uma boca linda. Principalmente quando diz: “Stanislavski”.

Qual é o texto?

Lenhador …

Esqueci mesmo!

Oh vida!

Alves! Não há Cristo que me faça lembrar.

Exercícios para a voz: Tuti, tatuti, tatuti, ta, ti, te, tatuti, tuti, tuti, tutitatitê/ Dudi, dadudi, dadudi, da, di, de, dadudi, dudi, dudi, dudidadidê/ Fufi, fafufi, fafufi, fa, fi, fe, fafufi, fufi, fufi, fufifafifê.

A da cruzada federal, que está em cena comigo, tenta segurar o meu espanto com meio riso.

Sempre era o primeiro a chegar ao ensaio. Nunca faltei.

Ajudei a fazer todo o cenário e figurino.

Fui o único que apoiou diretor.

Fui o que entendeu a profundidade dramática do texto e da encenação.

…e eu, logo agora, esqueci…

A mais velha de lábios lindos quando diz “Augusto Boal” está em um armário vazado, debate e tenta me enviar sinais. Não consigo enxergar os lábios dela. Pena, são deliciosos…

Nas coxias, vejo o diretor planejar a minha execução sumária! Limpa uma arma!

Oh Glória Menezes!

Não consigo lembrar.

Na apresentação para censura, fui bem. Fizemos em branco, sem entonação, apenas para mostrar a marcação de cena.

“Teatro é para os fortes!”.

A platéia está começando a rir da minha cara.

Todo mundo percebeu.

A da cruzada poderia me dar a deixa novamente, devagar e olhando nos meus olhos.

Peço baixinho.

Ela sai do torpor.

O diretor mira na minha testa.

A do armário finge um desmaio. Finge até o sangramento que realmente jorra.

Ela demora. Pausa dramática.

Fecho os olhos.

Espero a luz.

— Que olhos grandes você tem, vovó!

Ahn?!?

— Que olhos grandes você tem, vovó!

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2 pensamentos sobre “Que Ziembiński me perdoe

  1. Plínio eu estou num contentamento sem fim. Encantada com o seu jeito de escrever. Uma beleza. Enquanto absorvia as suas palavras, eu estava sentada na primeira fila observando o seu recitar!!!

    Lindo demais!!!!

    parabéns!!!

    Beijos!!^^

    Espero sua visita!! 😉

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