Crônica do Amor Louco – Degustação

sapataria 

O acordão com o Dr. Ramos saiu com as seguintes condições:

  1. Arranjar um emprego descente;
  2. Fazer uma faculdade qualquer à noite e por minha conta, afinal preso com título universitário tem cela especial.
  3. Parar de ficar mariposando pela vida.

Ele era amigo de infância do meu sumido pai!!

Para sair do xilindró: acatei.

Com outro amigo do meu pai, fui trabalhar em uma sapataria no centro.

Como um the flash já tinha adquirido uma leve depressão, acentuada pelo ato de alguém solicitar um calçado dois números menor do que realmente usa, síndrome de Cinderela.

Ou pedir um tipo preto, ver um amarelo, laranja, marrom, púrpura, magenta, cinza e branco e não levar nada. “Depois eu volto”.

Pouco depois, já tinha perdido o olfato, parte pelos diversos odores exalados da clientela, e parte pelo uso viciante do Vick. Alivia o peito e a tensão. Quase dá barato.

Conquistei algumas varizes e cataloguei a clientela em quatro tipos:

Os de pé plano — Muito chatos! São aqueles que tem o rei no dedão no pé, porém são pés rapados mas gosta de frequentar casas e festas de pessoas ricas e moram onde “judasperdeuasbotaseraspouoscalcanhares”.

Os de pé pronado — Afobados. Adoram meter os pés pelas mãos!

Os de pé calvo — Pegam tudo pelo pé da letra. Vão sempre ver se você está na esquina, mas em verdade são um “pé no saco”!

Já o pé neutro — Não parece, mas adoram enfiar o pé na jaca, depois de ter pisado no tomate e escorregado na casca de banana!

O que aliviava era a clientela de vestido ou de saia.

Deixava nas cadeiras mais altas e eu na mais baixa posição. Oferecendo para a degustação todo tipo de modelos, cores e formas.

Se não ficar bem, tenho outro modelo”.

Ou

Para ser sincero este é muito caro e não dura nada, tenho outro guardado embaixo da mesa do gerente”.

E

Este vai te fazer uma rainha”.

Um olho na gata e outro no batráquio dela.

Um dia entrou a Agnes, veio almoçar com a Silvana, também vendedora como eu.

— Pelamordedeus, posso ir junto?

— Ela é menina de família

— Também sou…

— Menina?

— De família, posso? Por favor! Peloamordedeusenossosenhorjesuscristo!

— Tá…

— Deus lhe pague!

Neste almoço, Agnes não me deu bola nenhuma. Nem olhou para mim. Tinha olhos só para a Silvana.

Almoçamos os três quase um mês.

Depois do quinto. Sempre a pedia em namoro. No começo quando a Silvana ia ao banheiro. Depois três vezes. Na chegada, no meio e na hora da sobremesa.

Depois pelo cansaço aceitou me namorar.

No nosso tempo de namoro, vendi com muito desconto sapatos para todos os familiares.

Isto até que ela foi assassinada!

 

— Caralho! Já disse que num fui eu. — A bem da verdade quase que confessei. Mas graças a lembrança de ser “lavadeira de cuecas de galinhos”, como da outra vez, e ao quarto tapão no ouvido: tomei prumo. Cuspi, respirei pela boca e continuei — Como estava informando a todos os senhores, digníssimos representantes da lei e da ordem, pela quinta vez, na data em que ocorreu o tal fato: o desumano assassinato da Senhorita Agnes, minha finada ex-namorada, eu, infelizmente e contra a minha vontade, estava totalmente ébrio e temulento. Calculo que estive neste censurável estado há, no mínimo, dois dias.

Tomei um telefone e foram mais quatro horas de interrogatório: neguei com minhas forças. Beijo na boca de vagabundo na cadeia nunca mais!

Fui jogado em uma cela que por graça divina não tinha ninguém.

Desmaiei cheio de dores e tive pesadelos com faca, sangue e chutes.

Nunca tentei nada com a Agnes. Nosso namoro foi do tipo “sala-varanda-sala” com alguns beijos no rosto, algumas mãos dadas, muita conversa e um beijão só no aniversário dela. Tinha que me aliviar sozinho em casa assistindo a TV Pirata. Cláudia Raia é um estouro!!

 

Na semana, acompanhava do trabalho para a casa. Beijos na varanda. Louise Cardoso se acabava na minha mão.

Nos sábado, filme com a família e beijos sala. Débora Bloch findava minhas aflições.

Aos domingos: missa das dez e depois a almoçar na casa dos pais. Até a Cristina Pereira dava caldo!

Ser interrogado dói muito, imaginar que será novamente em qualquer momento, dói muito mais. Confessar é uma “boa” opção.

Duas horas ou dois anos ou dois séculos depois vieram. Fiquei acuado no canto. Tremendo e me mijando todo. Indeciso em confessar ou não. Sim! Não… Sim… Não!

O carcereiro caminhou lentamente até mim. Parou, me encarou e gargalhou!

— Tá livre. O delegado mandou te buscar.

Chorei e tomei um tapão.

— Para com isso, maripousinha! — Será que era amigo do meu pai?

Fui andando mais culpado que nunca.

 

Até ela deu a letra.

— Bem o problema não é você: sou eu!

— Não entendi, o que fiz, Agnes?

— Fez nada. Somente não quero mais namorar você, me desculpe.

— Não há nada do que desculpar.

Junto ao delegado, encontrei o Dr. Ramos, que me tirou da outra vez.

— Putaqueopariu, dos Santos, tira este moleque daqui — disse o delegado quando entrei na sala — jogue uma água nele antes de entregar para a família! Que vão pensar da gente? — Gargalhou, mas logo parou por causa do ar sempre de sério do Dr. Ramos.

Eu me lavei, troquei de roupa e estava livre.

Dia seguinte não consegui trabalhar.

 

Fui na saída do trabalho dela e pedi para voltar, para reconsiderar.

— Não dá.

— Mas…

— Não dá mesmo! Desculpe… tenho…

— Tem outro?

— Não… tenho que ser sincera comigo mesma…

— Mas…

— Não!

 

Na sexta, muito bêbado. Encontrei com ela no caminho da casa.

— Larga meu braço, por favor…

— Volta, amor?

— Larga senão eu grito.

Ritorna amoré!

Gritou e larguei.

 

Sábado, pelo meio do dia. Mais bêbado ainda. Promovi o maior bafafá na frente da casa dela. Urrei, chorei, implorei, ameacei picá-la na faca, pedi, roguei, supliquei e clamei até que a polícia veio e me levou dali.

Jogaram muito longe de casa. Voltei a pé tentando não perder nenhum bar pelo caminho.

Última coisa que me lembro é um cão lambendo a minha boca e o ódio pela Agnes crescendo.

Na rua.

— O Sr. Valentim Soares que foi sua testemunha.

— Que Valentim?

— Ele disse que viu você bêbado em frente à casa dele. Desmaiado. Disse também que puxou você para um canto da rua e ali você ficou a noite toda até a polícia te encontrar.

— Que Valentim?

— Um rapaz com diversas cicatrizes no rosto…

— O Queimado?!?

— Parece que sim…

Então: não fui eu?!?

Carcomido pela culpa, fui à missa de sétimo dia de Agnes.

Cheguei com ela iniciada.

Fiquei no fundo. Rezando pela minha alma.

Os presentes estavam atentos à fala do padreco. Um pilantra que sempre “crescia os olhos” para a Agnes na hora de dar a comunhão.

Familão na frente: pai, mãe, irmãos, cunhada, primos, todos concentrados e demonstrando muita dor.

O pai, Seu Severino, um velho professor de matemática, que quando me conheceu, levou para dar uma volta pela casa.

— Rapaz, vamos ver se é esperto mesmo — fiquei na minha. — O que pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três?

Fingi pensar um pouco. Está era bico! Cansei de ler a história.

— Sr. Severino, é o homem que na mais tenra idade engatinha, pela manhã. Quando cresce torna-se homem anda com os dois pés. No final da vida já velho, anda com três, à noite de bengala — e sorri. Bastou para ele me dar um tapa no peito.

— Então cuide bem de minha menina, pois qualquer coisa eu dou cabo de você — e depois me contou dos primos policiais que faziam parte do Esquadrão da Morte.

A mãe, Dona Glória, do lar ativa e simpática. Tipo “forno-fogão-e-bom papo” Falava de tudo e de todos.

Um irmão mais velho, Marcos também era professor de matemática. Tipo baixinho, poucas palavras, sempre de bode e com um medo pavoroso de galinhas, frangos e pintinhos. Casado com a Claudette, pistoleira de marca maior. Ninguém gostava dela, só a Agnes.

Um irmão mais novo, Milton, vidrado em futebol, que sempre queria jogar bola comigo no quintal.

Já os olhos de todos brilhavam com a pequena Erica, filha de Marcos e Claudette com quase três anos.

O padreco faz uma homilia. Ia bem, dominando a platéia, comovendo, conduzindo até que me viu. Escondi-me atrás de uma coluna. Fechou a cara. Apontou o dedo.

— Satanás, Belzebu, Lúcifer e Mefistófeles. “Quem comete pecado é do Diabo; porque o Diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo. Sujeitai-vos, pois, a Deus; mas resisti ao Diabo, e ele fugirá de vós”.

Todos olharam para mim. Claro!

Sai à chinesa e dei de cara com dois guardas-roupas-primos do Severino. Me tiraram a meio palmo do chão.

Nas escadarias, socos no baço e tapões.

Ganharam o primeiro prêmio de arremesso de “ex-namorados-suspeitos”: quase no outro lado da rua. Faltou dois dedos para eu arrebentar a cabeça no meio fio.

— Fica esperto pilantra, o Mariscot ainda vive em nossos corações…

Fiquei alguns minutos estendido chão, esperado eles irem embora. Esperando a vergonha passar.

 

Na miúda fui me embebedar com café super açucarado.

Dois copos grandes depois e a missa não acaba. Meio enjoado pelo porre e pela porradas, fiquei de olho na saída

Minha mórbida irmã reuniu tudo que saiu nos jornais sobre o crime: Agnes foi encontrada na terça de manhã pelo pai e o irmão mais velho em uma casa abandonada nas vizinhanças. Estava sumida desde sábado à noite. A coitada estava nua e com mais de trinta facadas pelo corpo. Principalmente no rosto e na buceta. Foi picada como eu ameacei. A polícia nem investigou muito, o Marcos logo falou do bafafá que eu tinha feito no dia anterior e foi o tempo dos homens levantarem a minha capivara, darem busca e apreensão e me acharem desfalecido em frente à casa do Queimado.

Edgard me contou que o Queimado me viu estendido no chão. Mijou em mim, deu algumas pauladas e até pensou em por fogo, mas talvez viu a luz ou não tinha fósforo, somente me arrastou para o meio do mato.

Ali fiquei, sendo meio comido pelos ratos e baratas, até que os policiais me resgatarem.

Missa finalmente acabou no meio do quarto copo de café.

Foi aquela cena de sempre: os familiares desconsolados se abraçando e recebendo as condolências. Pai tentando manter-se firme. Mãe desaguando. Irmãos meios zonzos e a cunhada quase se desidratando.

Todos entraram nos carros. Quando a cunhada foi entrar em um, o pai de Agnes a pegou pelo braço, falou algo e a deixou na rua. Ela chorou muito mais!

Logo vieram consolá-la, inclusive a Silvana, minha colega do trabalho. A duas saíram abraçadas.

Paguei o consumo e voltei para casa. Encafifado.

No dia em que fui mandado embora do trabalho, Silvana estava desconsolada.

— Fica fria eu me viro…

— Eu sei…

— Não fique assim…

— Assim como?

— Chateada com o que me aconteceu…

— Tô não. Tô preocupada com Claudette.

— Por quê?

— Sei lá… ela fica falando que também é culpada… que não queria… quando perguntei ela se fechou em copas e não falou.

Mas alguém se sentindo culpado além de mim? Por que ela também?

— Além do mais o marido está esquisito com ela.

— Sei…

— Ela está grávida.

A cunhada me encafifou.

 

Naquela de “estar-atrás-de-trabalho”, resolvi seguir a cunhada.

Para quê? Por que não?

Tinha uma manhã besta: Marido saia cedo, ela arrumava a casa, fazia compras, conversava com uma ou duas vizinhas, arrumava o almoço, o maridinho chegava, comia e saia, ela arrumava a cozinha e depois saia também.

Nas tardes, cruzava a cidade de ônibus para ir em uma manicure. Passava a tarde toda lá.

Achava uma besteira dela. No bairro dela tinha mais manicures que bar. Em cada quadra duas ou três.

Estranho é que depois da Claudette nenhuma outra freguesa chegava.

Mais esquisito: a manicure era anã.

Talvez fosse pelo passeio.

Talvez pela liberdade.

Talvez pela manicure anã?

Talvez para sair revigorada?

Talvez para sair.

Sei lá…

Sempre apressada voltava para casa de taxi: preparava o jantar e o maridinho voltava à noite.

Minha irmã a afirmou que ninguém faz manicure mais de uma vez por semana. Ela devia estar aprontando alguma!

 

Dia seguinte fui ver.

Fui pelo fundo.

O muro foi fácil.

Quintal cheio de quinquilharias. Porta do fundos destrancada.

Um mugido fino de fundo.

Sigo o som.

Pelo espelho vejo a cunhada se enfiando no meio das pernas da anã. O mugidinho era da pequeninha. Admiro a línguona para fora e os olhos revirando!

Saio de costas. A cena da Claudette chafurdando na nanica me deu tesão!

Dois copos de café e dois cigarros depois a Claudette sai.

Agarro firme pelo braço na outra esquina, antes de entrar no taxi.

— Me conta tudo!

— Conta o quê? — disse visivelmente assustada.

Subi no muro do quintal e vi uma transa que não é normal e ninguém vai acreditar: vi você babando na aranha da nanica!

— Meu Deus! — imaginei que ela fingiu um desmaio e deixei cair na calçada, bateu legal a cabeça.

— Quer eu chame alguém? O Marcos? O Seu Severino? — como uma bonequinha de mola a cunhada voou em meu pescoço.

— Meu Deus! — Dois tapões a acalmou.

— Vamos tomar um café porque você tem muito o que contar.

Ela falou tudo.

Recontou e somente eu pensava em capotar a sugadora.

— Certo. Entendi, mas vai lhe custar…

— Custar como? Me abri… contei tudo…

— Vai liberar agora!

— Onde?

— Problema seu. Aqui ou por aqui, mas antes escove os dentes e faça um longo enxágue na sua boquinha!

— Tá…

Comi a cunhada-sapata sem dó. Arrobei legal. Debelei a minha vontade. Abati a desgranhenta pensando na Agnes!

— Deixe pago que vou ficar mais um pouco.

Ela foi embora do quarto fuleiro e fiquei ruminando a história toda.

O primeiro beijo marca. Vai pela vida toda!

Somente é superado quando a parceira torna-se o ar que respira.

Assim era para Agnes. Não tanto para Claudette.

Para Claudette era brincadeira, tiração de sarro, experiência, outro gozo e alguém para servir.

Para Agnes não. Era superação, se sentir mais mulher, se sentir pessoa, plena e viva.

Eram amantes.

Mas temeram que alguém descobrisse. Que alguém soubesse do amor, da paixão e do pecado.

— Se meu pai descobre me mata!

Claudette não se importava, se descobrissem acabava esta vida. Meninos e meninas lhe agradavam. Ela não queria ser de ninguém. O irmão, Marcos, até que era jeitosinho.

— Fico com o seu irmão! Assim a gente pode ser parente, legal?

— Não!

— Vamos.

— Não, você é só minha.

— E se descobrirem? — falou já pensando em escrever uma carta anônima para o Severino.

— Tá bom!

E o bobão caiu fácil, em menos de seis meses, já estavam noivos. Claudette tinha o melhor dos dois mundos.

— Hoje pode!

E pode: casamento às pressas, vestido de noiva largo para disfarçar a barriga, festa feita no salão do clube, Agnes à beira de um ataque de nervos, marido contente e sogros radiantes.

Logo nasceu a filha!

Dele foi mais de quarenta dias de resgardo. Foram quase sessenta.

Dela, logo depois da primeira mamada da filha, sugou a cunhadinha.

E a vida foi.

— Eu fiz o meu sacrifício, agora faz você.

— O quê?

— Arranje um namoradinho para disfarçar… sua mãe já está falando…

Estava falando nada! Era um jeito da Agnes arranjar um macho e parar de cercar a Claudette. Esta constatou que há muitas outras pererecas no brejo.

Agnes tentou um, dois e três.

Este último, que vos fala, foi o menos ruim. Agnes pelo menos simpatizava. Não tinha tanta vontade de vomitar, somente às vezes.

Até que um dia Claudette não se aguentou. Pediu para a diminuta, novo lambetório, que escrevesse uma carta para o Marcos, contanto mais ou menos tudo, porém livrando a “cara” da Claudette.

Ela disse que fez, porém a reação do Marcos estava demorando.

Até que naquele sábado, não resistiu e “caiu de boca”. Quando Agnes fazia a devolutiva, o irmão chegou.

Com uma faca na mão.

Claudette gritou que estava grávida e o outro cravou a faca no pescoço da Agnes.

Berrou que ele era o homem da vida dela e ele quase degolou a irmã.

Uivou que a outra era uma perdição enquanto ele ferroava a maninha que tanto dizia amar.

Somente parou tudo quando o pai chegou.

Claudette limpou a rio ao mesmo tempo em que os dois livravam do corpo.

Combinaram a história e o suspeito de sempre.

O tempo dela termina quando o bebe nascer. Mas Claudette não está grávida de verdade.

Faço o quê?

Desta vez não misturei destilado com fermentados.

Comi bem, hidratei, fiz turno de 30 por dez de descanso e tomeis duas aspirinas.

Fingi que apaguei na casa da minha atual namorada, Silvana e esperei os homens virem me pegar.

Vieram como o planejado.

Nesta o tratamento foi quase cinco estrelas, tinha tomado apenas dois sopetões antes deles entrarem no assunto. Quando iam introduzir-me no camburão, o Dr. Ramos chegou e mais duas testemunhas minhas: Edgard e o Quincas.

Juraram que ficamos fazendo serenatas para todas as minas do bairro.

Para provar cantamos, comigo no vocal, Quincas no baixo, Edgard na percussão e Dr. Ramos e Silvana no black vocal: “O que que é” de Fábio Junior, “Eternas ondas” de Zé Ramalho, “Tô que tô” de Kleiton e Kledir e “Clara Crocodilo” do Arrigo Barnabé. No bis fizemos: “Phisical” de Olívia Newton John.

Por curiosidade jurídica, o Dr. Ramos questionou sobre qual crime eu tinha sido falsamente imputado.

Sob protesto, disseram que era sobre a agressão ao Sr. Marcos Fontes.

Marcos, o irmão de Agnes.

O que aconteceu com o meu ex-cunhado?

Rindo falaram que ele estava em estado de choque, todo desidratado, com diversas ferroadas de abelhas e somente pedindo desculpas para a irmã falecida.

E eu com isto?

Reúna os suspeitos de sempre.

Saímos rindo relembrando Casablanca.

Voltei ao Teatro.

Sai de casa, fui morar em uma pensão no centro e pensava na Agnes quase todos os dias.

Para desafogar o ganso, chantageei a Silvana: me dá muito ou eu conto para todo mundo que você foi namorada da Agnes. Isto foi outra coisinha que Claudette me confidenciou.

Deu, gostou e namoramos. Coloquei a ex-sandalhinha no bom caminho!

Viajava como iluminador de diversas peças. Algumas boas, outras ruins demais e outras horríveis de dar dó. O que dava dinheiro era o “novo teatro” meio pornochanchada, meio erótico, meio comédia com atores péssimos.

Fui chamado, a preço fixo, para fazer a luz de um peça infantil: “Vendo galos, galinhas e outros pintinhos” e com isto veio a realização de vingança.

Pecinha boa, viajável e que ganhamos uma boa grana. Consegui sair da pensão e alugar um apartamento. O que me fez tramar foi a trilha musical, cheia de sons de aves.

O diretor era também filho do dono do Teatro. Então pedi emprestado por uma segunda para ensaiar um monólogo. Claro que com a ajuda do sonoplasta arrumei a trilha.

Dois tapões bastaram para que Quincas concordasse em dar cobertura.

Dr. Ramos nem quis saber dos detalhes e Edgard só topou se pudesse ir junto.

Silvana ligou para o pilantra do Marcos com a mesma canção: vem me ver ou eu conto tudo.

O bundão ficou apavorado, implorou para que conversassem. Ela resistiu um pouco e topou. Segunda em frente ao teatro.

Abatê-lo foi fácil: uma toalha encharcada de lança-perfume concentrado, foi o suficiente para levá-lo para dentro, colocá-lo no palco, amarrá-lo e esperar.

Meia hora depois ele é acordado, está vendado. Som alto. Toda a trilha com cacarejos, ruflas, grasnos, gloteros, pios e taramelas. Fundo musical: participação de Burt Bacharach no “Muppets Show”.

O pilantra se acabou de chorar e se molhar.

Defecou até pelo nariz.

Ouviu a voz do Edgard empostada e amplificada, dizendo a festinha era pela Agnes.

Não sei de onde e nem como, Edgard conseguiu uma pequena colmeia e lambuzou o pulha de mel.

Desacordado, espalhamos as abelhas com um extintor.

Joguei o pelintra, nu, calombado e arrombando em frente à casa dele.

Depois levemos mais de duas horas para limpar o palco, mas valeu.

Fiz pela Agnes.

Fiz por mim.

 

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