Manual do futuro egresso

Conto 21 – 1986

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A caminhada é a seguinte:

— Coxinha é policial. Meganha também.

— Nem antes, nem depois e nem no dia de visita: não espoca a silibina.

— Se der e tomar vai virar corcunda.

— A mulher do outro é outro.

— Raio é um amontoado de celas.

— Não se come com a boca aberta.

— Olho é vista. Boi é privada e a Lecy Brandão é a nossa rainha!

Então: foi isto que ouvi.

 

Imagine que você cai muito antes da permissão de visita conjugal.

 

É isto que você deve ouvir quando entrar no Limbo.

Não importa se o comparsa caguetou ou se você é até inocente: está trancado e tem que sair vivo!

 

Então anote:

— Ande sempre de cabeça baixa, perto da parede. Mostre consideração sempre.

— Para manter os dentes firmes, cuide da própria vida.

— Faxina é o madona do pedaço. É aquele que manda chover e manda secar.

— Se o Faxina mandar pular: somente pergunte qual altura que quer.

— Visita dos outros não tem rosto, nem cheiro e nem conversinha;

— Se deve: pague. Não tente dar um batatada em ninguém.

— Se devem: peça autorização do Faxina para cobrar.

— Paulinho da Viola faz samba de raiz.

 

A sobrevivência dependerá para quem você for dar.

Entrando raio, não seja currado pelo primeiro que aparecer. Com certeza será um teste. Se der para qualquer um, dará para todos e não terá respeito. Faça doce, resista e distribuía algumas chulapadas pela geral. Não grite nunca! Leve os seus tombos com dignidade.

Tenha certeza: vai apanhar e será rodado por dois ou três de sua cela. Depois de restabelecido e suturado, vai ter que correr atrás do ar.

Preste atenção naquele que não tentar nada com você.

Naquele que parece nem estar se divertindo com o seu arrombamento: este é o galo.

É o Faxina!

É aquele que pode fazer o seu limbo mais suave.

Observe feito coruja.

Respire o ar dele.

Deixe ele ver você.

Um dia, na hora da xepa, ofereça a sua sobremesa e peça um particular.

Dias depois será chamado para o parlatório.

Chegue à japonesa, passos leve, não encare e fale baixo.

Fale firme.

Fale como homem: quero ser só seu.

Ele vai pensar alguns dias.

Resista com moderação a outras investidas.

Um dia: ele chama, abençoa e manda você para a cozinha dele.

Você é dele.

Você agora está suave.

 

— Prefira sempre de ladinho. (Doerá só no começo).

— Para ganhar o coração do seu Faxinão, nas primeiras vezes, finja a dor que realmente sente. Finja alto. Banque o cabaço.

— Na lua de mel: gema muito. Urre, diga palavras de amor e agradeça a Deus o homem que tem.

— No casamento: gema muito mais. Agradeço ao seu pai, à sua mãe e a todo mundo que estiver assistindo.

Siga a faixas ou orientações importantes para um bom viver:

— Esteja sempre cheiroso, bonito e oleoso.

— Agachamentos fortalecem os glúteos.

— Mastigue cem vezes cada garfada, além de facilitar a digestão, fortalece os maxilares.

— Exercite a embocadura sempre.

— Açúcar refinado e farinhas brancas provocam secura, acnes e aftas. Evite.

— Mantenha a sua boca sadia e a alma gulosa.

 

 

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Almoço grátis não existe.

O seu Faxina usará e lambuzará. Vai cozinhar para ele e para quem ele mandar. Seja criativo na mesa, no beliche e no banho.

Lave os pertences dele com cuidado. Separe as peças e faça o pré-tratamento das manchas. Roupas brancas e de cores claras devem secar ao sol e as de cores brilhantes à sombra;

Hidrate os pés e as mãos a cada cinco dias.

Maquiagem discreta e unhas bem aparadas.

Somente base é o ideal

Suas coisas são do seu Faxina.

O que você trouxe é dele.

O jumbo que sua família trouxer é dele.

O que ele der, guarde com carinho e ternura. Certamente irá para o próximo preferido.

As coisas dos outros não são suas

Nos dias de visita: use as roupas do mundão.

Apresente o seu Faxina para os seus familiares.

Convide ele para ser padrinho de um filho seu ou sobrinho.

Deixe ele beliscar a sua mãe ou irmã.

Incentive que ele zoe com o seu irmão ou cunhado.

 

Fantasie que um dia de sol quadrado, todos ficam sabendo que há dois césios no raio 2: Nego Doido e Olhos de Gato.

Nos corredores, comentam que eles os barbarizaram: fizeram os meganhas dançar a La Bamba. E só para azucrinar, com os frangotes no porta-malas, deram um role com a viatura e a enfiaram contra o muro.

— Deu até no Aqui e Agora.

Viram lenda.

Pense que querendo subir no conceito, o seu Faxina oferece uma comilança para os considerados.

A cozinha fica molhadinha.

Jurema decora o refeitório.

Abigail desempareda pratos e os talheres do mundão.

Fernanda prepara um pernil de carneiro no limão.

Cláudia destila uma maria-louca com maracujá.

E você faz os seus mundialmente conhecidos quindins com açúcar mascavo.

Com certeza eles se fartaram. Pode até ser que o Nego Doido fique de olho grande em você.

Para fazer os pensamentos voarem, você apresenta uma versão musical de “Entre quatro paredes”.

Bucho cheio, coração tranquilo, eles devem aplaudir de pé.

Vendo o sucesso o seu Faxina até te lasca um beijo na frente de todos.

Naquela noite ele vai aquecer você.

Dias depois, Nego e Olhos de Gato fazem uma presença para a diretoria: uma pacoteira de mariajoana e um estojo escolar cheio de maiquelqueine.

Seu Faxina se afoga na bagaça.

Quando submergir, o Nego Doido pode pedir você em namoro. O Seu Faxina empresta por quatro dias. Vão ficar num individual de mel em uma cela.

No primeiro dia: vão cheirar e ele lhe conta que tem saudades da sogra.

Brincam de pega-ladrão.

Ele brocha e dormem de conchinha.

No segundo dia, cheiram e lhe conta que tem medo de escuro.

Passeiam de mãos dadas pelo pátio.

Jogam truco.

Ele brocha e vocês só beijam na boca.

No terceiro dia, ele cheira e lhe conta que tinham inventado a história dos coxinhas. Conta que foram presos depois de estouraram uma menina de quatro anos.

Ele brocha e você fica com dor de cabeça.

No quarto dia, cheira e pede que fizesse ele. Faz e volta para a sua cozinha. Não conta para ninguém: Rato linguarudo é pego na ratoeira.

Dias depois o seu Faxina dá falta da revista com a Roberta Close.

Suspeitos de sempre e a cozinha apanham. Não encontraram nada.

Começam a desconfiar deles mesmo. Reviram e nada.

Desconfiam dos recentes. Reviram as outras celas e acham nas coisas no Nego Doido.

No parlatório, depois dos telefones, choques de espiriteira e mergulhar na privada: Nego Doido desmaia.

Tapas depois, o Doido acorda contanto tudo: que matou o Aberlado Barbosa, o Seu Madruga, a menina de quatro anos e que gostou do seu quindim. Nega ter roubado a revista.

No venha cá com o Olhos de Gato. Antes do primeiro tapão, conta tudo, menos da revista.

— Os erros passam, a verdade fica — diz o seu Faxina.

Olhos de Gato confessa.

Nego Doido chora.

Enforcam os dois com uma tereza de crochê que você fez.

 

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