Quase uma ficção – Degustação

Seres 2

1993

Depois de dez anos, meu pai reapareceu em uma quinta.

Quase três da tarde.

Ele tinha sumido em uma terça de 1983 pela hora do almoço.

Fingiu que não me reconhecia. Quem é você?

Minha mãe, um pouco. Sua expressão não me é estranha?

Minha irmã, com clareza. Minha mais querida filha, como você cresceu!?! Casou?

Minha mãe ficou chocada, minha irmã emocionada e eu sai da sala para não gargalhar na cara do pilantra.

Passaram os dias e aquele embusteiro, que se fazia de esquecido, foi lembrando.

A cada história, minha mãe foi ficando mais escandalizada. Minha irmã, amorosa e eu com vontade de furar os olhos daquele desgraçado!

Todo tempo jurou que não foi “comprarcocacomcascodepepsi” e nem “comprarcontinetalsemflitro”.

Para os parentes, contou que voltava de uma vigília de Santa Brígida quando foi surpreendido por uma luz vermelha. Que de um pontinho virou um pontão. Disse que era um tipo de pirex voador.

Para os vizinhos, que a coisa pousou pertinho. De repente, a parte de baixo da coisa se abriu e meu pai tentou correr, mas foi pego por um raio verde que deixou as pernas duras e presas no chão. Aí ele viu um baixinho, que andava “quinze para as três” e tinha olhos grandes, cabeça pequena e orelhas de abano, tipo Dumbo! Contou, também, que agarrou o camaradinha pelas orelhas e deu uns tapas. O bicho grinchou e deu um chute no queixo de meu pai que caiu feito um saco de bosta!

Para o pessoal do bar, afirmou que quando acordou: estava nu e com outros dois Dumbinhos passando um tipo de óleo. Refrescante e adstringente. O calhorda jurou que, apesar do medo, se sentia renovado.

Para um jornal de circulação nacional, assegurou que um terceiro baixinho trouxe uma gosma azul que enfiaram goela abaixo. Gosto de Tubaina com Sonrizal. Ficou zuretão! Ficou durão! Ficou entumecidão. Do meio de uma luz âmbar saiu uma mulherzona, um guarda roupa duplex, peladona e com três vaginas. Duas delas embaixo dos braços… e aí ela fez a festa.

Na televisão, em uma sexta, depois da novela, meu pai relatou que quanto mais cansava, mais gosma engolia e mais comia as axilas da gigantona. Disse que sovacou pelo menos quatro bitelonas e duas bitelinhas. Uma hora deram mais da gosma, que não firmou: relaxou. Meu pai desfaleceu e quando acordou estava perto da casa de minha mãe. Correu para lá e viu que se passaram dez anos.

Meu pai virou notícia.

Segurei a revolta.

Minha mãe ria alto e minha irmã agradecia a São Judas Tadeu.

Nunca falei nada, mas já tinha cansado de encontrar o pilantra em inferninhos ou dando umas voltas na cidade. Sempre se achando, sempre pondo banca. Teve vezes que me via e fingia que não me reconhecia.

Deixei quieto.

Muita lorotas.

Teve um dia de Natal que falei que ele era mentiroso. Contei tudo. Meu pai com a maior “cara babada” disse: Devia ser um robô-cópia! Eles tinham isto, sabia?

Deixei mais quieto ainda.

Um dia: meu pai morreu. Sábado, manhã da véspera do “Dia dos Pais”.

Minha mãe desidratou de tanto chorar.

Minha irmã ficou muda.

Eu nem aí.

Não sei quem foi o otário que decidiu que o enterro só na manhã seguinte. Domingo!

Na tarde e um pouco da noite de sábado: aquele desfile:

Bom homem!

Vai fazer falta!

Lamento muito!

E: Quem era ele? Seu parente?

 

Cansadas, minha mãe e minha irmã, insistiram que eu ficasse velando o defuntão a noite toda.

Eu e o meu pai. O pilantrão e eu! Oba!

Noite quente.

Fiquei fumando na porta. Ora olhava para o caixão, ora olhava para o tempo.

O cheiro azedo do meu pai inundava o ar das minhas lembranças. Não chorei.

Nem tive tempo de contar para ele o que fiz na sua ausência.

Talvez pelas duas da manhã, vi a galalau chegar. Fiquei com os meus pés colados do chão. Seria o raio verde agora incolor?

A bitelona nem ligou para mim. Foi até perto do caixão e relinchou. Alto e dolorido de apertar o peito.

Depois entraram três galalaus médias, parecidas com a minha irmã, e zurraram de cortar o coração.

No meio daquele banzé, aparecem os três Dumbinhos que granaram de forma lancinante.

Logo atrás veio dois meio altinhos, de orelhas menores e muito parecidos com o meu tio de Ribeirão, que gorgolejaram de dar dó.

A lamentação foi triste. Quase chorei.

No meio daquele desalento todo nasceu uma luz âmbar.

Intensa, me cegou e sumiu.

Sumiu com tudo: uma coroa com crisântemos azuis que o pessoal do bairro mandou, minha jaqueta jeans que ganhei da Christina, o livro de presença, os castiçais descascados, os meus documentos que estavam na jaqueta, um bêbado que deixei dormir atrás da mesinha do café, o livro que tinha emprestado da Emília, um quadro da Santa Ceia, a minha carteira de cigarros fechado, um tule de nylon verde e o caixão com meu pai dentro.

Sobrou abrir um boletim de ocorrência dizendo que indivíduos indeterminados roubaram o meu pai.

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Ne me quitte pas – degustação

Bêbada

 

Meu mundo caiu/ E me fez ficar assim/ Você conseguiu/ E agora diz que tem pena de mim…

 

Antes de fechar a porta já sei: minha mãe está bêbada!

 

— Não sei se me explico bem/ Eu nada pedi/ Nem a você nem a ninguém/ Não fui eu que caí…

 

Tranco com duas voltas a porta.

Fecho o vitrô da sala.

 

— Sei que você me entendeu/ Sei também que não vai se importar/ Se meu mundo caiu/ Eu que aprenda a levantar…

 

Faço vestir uma calcinha, um sutiã e o penhoir rosa. O azul está mijado!

Ligo o rádio bem alto.

 

— Onde estás que não respondes?/ Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes…

 

Recolho as garrafas.

Limpo os cinzeiros.

Jogo no vaso do banheiro os restos de cigarro.

Tentando me alegrar com um hully-gully, ela vomita no meu pé.

 

Ouça, vá viver/ Sua vida com outro bem/ Hoje eu já cansei/ De pra você não ser ninguém…

 

Lavo o banheiro.

Faço ela escovar os dentes. Troco o meu bamba e separo uma Cibalena. Melhor: três!

 

O passado não foi o bastante/ Pra lhe convencer/ Que o futuro seria bem grande/ Só eu e você…

 

Tiro pó dos móveis. Enquanto ela dança um twist.

A medida que varro a sala, ela imita a Marta Rocha com o penhoir à meio seio.

 

Vai lembrar que um dia existiu/ Um alguém que só carinho pediu/ E você fez questão de não dar/ Fez questão de negar…

 

Limpo os quartos.

Ela prepara o falsete “xeniabiar”.

— Sabe que a nova namorada do seu pai mandou lembranças?

 

Troco as roupas das camas.

Ela senta na ponta da cômoda no estilo “claudiabarroso”.

— Agora é uma biscatinha quase mais nova que você?

 

Arrumo o guarda-roupa.

 

Estranho amor,/ Regressaste e eu te aceito,/ Pois minhas noites são longas,/ Os meus dias são vazios…

 

Deixo os meus meiões e cuecas de molho e lavo as camisas do meu pai. Com especial atenção para o colarinho e os punhos.

 

Perto de ti sofro muito,/ Longe de ti, sofro mais,/ Somos iguais,/ Vivemos do ódio do amor,/ Estranho amor…

 

Passo a saia azul marinho de minha irmã.

 

— Sempre quis ser telefonista… mas fui casar!— e quase cai do criado mudo.

Coloco o feijão de molho.

 

— Sempre quis ser professora… mas fui casar! — e tropeça no banquinho da vovô.

Escolho o arroz.

 

— Sempre quis ser vendedora da Avon… mas fui casar!— grita da sala.

Tempero os bifes.

 

— Sempre quis ser trapezista… mas fui casar! — sussura do banheiro algo que nem quero saber.

Batendo um bolo de fubá constato que daqui a pouco vou gritar com ela!

 

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver/ E a primeira estrela que vier…

 

Vou gritar e ela vai abrir aqueles olhões de ressaca.

Vai fazer cara de “maneminhamãe”

 

Para enfeitar a noite do meu bem/ Hoje eu quero paz de criança dormindo…

 

Vou gritar mais alto.

Dizer que não aguento.

Dizer que não quero mais isto e ela vai dar uma de “joãosembraço” mordendo a alça do sutiã.

 

E o abandono de flores se abrindo/ Para enfeitar a noite do meu bem.

 

Vou berrar para ela “assentarofacho”.

 

Ela vai fazer a mesma cara de cadela bêbada sem dono e tentar mudar de estação no rádio.

 

Ne me quitte pas…

 

Vai para o quarto arrastando os chinelos, tentando fechar o penhoir e não acertando nenhuma casa.

 

Ne me quitte pas…

 

Vai chorar de berrar.

 

Ne me quitte pas… tô só esperando vocês crescerem pra voltar pro meu francês! — diz a mesma coisa desde que eu era pequeno.

 

Vai dormir de boca aberta.

 

Depois

 

Bem depois.

 

Muito depois da novela das oito: vai acordar.

Vai reclamar de dor de cabeça.

Vai tomar duas Cibalenas com café.

Vai bater as panelas na cozinha.

Vai enrolar na sala e me chamar para ir na padaria. Quer comprar chicletes.

 

No caminho vai chorar muito mais e pedir as velhas desculpas.

Nunca mais vou fazer/ O que o meu coração pedir/ Nunca mais vou ouvir/ O que o meu coração mandar/ O coração fala muito/ E não sabe ajudar.

 

Vai jurar que nunca mais vai fazer.

 

Vou acreditar.

Baratas!!

Baratas 2

Pleno sábado quente.

Eu vendo televisão, pensando em que peça irei filar um gratuito.

Companhia.

Imagino que o vizinho do 1401, em baixo do meu, avisando que iria fazer muito mais barulho. O otário estava mexendo em um encanamento entupido.

Atendo.

Não era.

Era a fabulosa do 503!

Uma meninota de mais ou menos trinta anos e com a segunda melhor bunda que meus olhos já cobiçaram. E um bucetão respeitado!!

Moro por aqui há quase dez anos. Há dois aquela sensacional me encanta. Criei até esquemas: ela estando no hall, deixo entrar antes, peço licença e vou para o fundo do levador, afinal descerei no último andar, fico encostado no fundo, em uma cadeira chinesa: me farto. Ou ela entrando quando descemos, gentilmente vou para o fundo e aprecio. No térreo pulo para abrir a porta e lambo com a testa.

— Pois não?

— Perdão, mas preciso de ajuda…

— Por favor… — e ela entrou em meu apartamento. Chorava e portava um florido vestido de musselina que realçava todo o volume, profundidade e a quarta dimensão daquele traseiro. Ela era um tipo mignon, baixa, pernas fortes e um longo cabelo preto. — O que houve, querida?

— Me perdoe mais meu marido… sei lá… deu um troço nele e está querendo me matar.

— Mas?

— Sei lá… ciúmes… disse que tenho caso com todo mundo daqui… — levei ela até o sofá desejando ter um caso ali mesmo. — Consegui fugir, mas fiquei com medo e vergonha de descer… resolvi vir até aqui, buscar ajuda com o senhor…

— Pode me chamar de você.

— Tá… você …

— Fez bem… quer que chame a polícia?

— Não… por favor não… ele é muito bom para mim… deve ser uma fase…

— Tá…  quer uma água, chá, tenha uma cerveja ou o meu amor?

— Como?

— Água?

— Água…

Vou buscar lamentando não ter nenhum “boa-noite-cinderela” para dar servir. Daria um e meio e me fartaria. Frente, fundo e arredores.

Quando volto ela está vendo minha coleção de revistas em quadrinhos. Distraidamente, curva-se para pegar uma de baixo: “As Aventuras de Diana”. Ela está sem calcinha!! Temi ali que não seria a segunda melhor, acreditei que era a quase primeira. Estava toda exposta. Panorâmica! Mechamando!!

Engasgo, tomo água e volto para a cozinha. Penso que a coisa deve ter ficado muito ruim para a gostosinha ter fugido sem calcinha. Oba!

Volto com um segundo copo e ela está sentada no sofá lendo com um cruzada reveladora. Saia quase levantada. Mostrando alguns pelinhos. Oba e oba!

Pega o copo. Bebe devagar. Tira os olhos da revista e me arpoa.

— O senhor me quer?

— Chame de você…

— Quer?

— Sim.

— Vem…

Ela caminha até a poltrona do lado oposto a porta de entrada. Apóia as mãos no encosto. Levanta o vestido e me brinda com o seu biscoito lambuzado. Arreganha.

— Vem.

Fui. Beijei a fenomenal.

Lambi o mais fino biscoito. Tirei a minha calça.

Afinei a ponta e senti uma forte coronhada.

Cai e bati a cabeça na mesinha de centro.

Não desmaiei não. Deu para ver o maridão entregando uma calcinha para a formosa do 503, enquanto apontava um revolver para mim.

Segurei a peruca. Não desfaleci e tentei me levantar.

Bastou para maravilhosa do 503 me dar um chute na boca.

Aquietei.

Os dois me encaravam.

Ela com ira. Muita fúria. Muito ódio.

Já ele só com uma raivinha.

Respirei devagar, tentando imaginar uma rota de fuga. Não havia.

Gritar tomaria um tiro na boca.

Sair na mão não sei se conseguiria. Afinal sou um senhor.

— Você lembra de mim? — questionou a maravilhosa do 503 com o joelho em meu peito.

— E a madame do 503? — levei um murro no meu olho esquerdo.

— Lembra? — optei por ficar calado. — Não seu degenerado? Seu crápula-filho-da-puta? Vai me dizer que não lembra de Procópio?

E a luz foi feita: A sensacional do 503 era a mitológica do interior!! A Segunda melhor bunda era também a primeira!

— Procópio? Não senhora — agora foi o maridão que enfiou um chute em minhas costelas enquanto ela esmagava os meus bagos.

— Você não imagina o que ela passa? O que ela sofre com o que você fez? Tem dias que acorda gritando…

— Fiz o quê?

Eles me erguem do chão para simplesmente meterem chutes em meus joelhos e duas coronhadas na testa. Deito.

 1994

Tínhamos um golpe muito bom: Iamos para uma pequena cidade do interior. Espalhávamos cartazes informando que promoveríamos um curso gratuito de modelo e manequim. 

Dez aulas inteiramente grátis!

Nas cinco primeiras, coalhadas de mulher de todas as idades, cores e gostos, falávamos da vida de artistas, das dificuldades e como erámos famosos na capital. Vez por outra montávamos um esquete com as participantes. 

Na sexta aula começávamos a ensaiar para o desfile final.

Acontecesse o que acontecesse todas eram maravilhosas, lindas e muito talentosas.

Todas se sentiam umas Cindy Crawford!!

Na oitava aula aparecíamos com, pelo menos, vinte convites para cada participante. Teriam que vender.

Na décima aula todas acertavam.

No desfile final estávamos em outra cidade.

— Juro nunca vi mais gorda.

— Seu pervertido!! — Uma bolacha Classe A em minha face esquerda. — Um dia passando pela frente do prédio,  vi você! Tive vontade de matá-lo ali. Você me olhou, sorriu e cumprimentou. Percebi que não me reconheceu. Fiz que fiz até que consegui um apartamento aqui e planejei. Pensei em enfiar a sua cabeça num capuz e fones de ouvido e colocar para ouvir, durante horas, o Tchan na Selva. Ou prender suas mãos as mãos nas costas e depois pendurá-lo ou, a minha preferida: arrombá-lo mais de Mil vezes, suturar tudo e arrombar de novo! E nas horas de descanso enrolar o seu pau em um fio desencapado de 220 volts! — achei melhor dispensar qualquer comentário.

 

Em Procópio fizemos como manda o figurino. Porém me encantei pela bunda mais admirável, assombrosa, eletrizante, espantosa, estonteante e singular que já tinha visto!!

Cerquei. Cantei. Prometi mundo e uma novela na Globo. 

Na sétima aula, apliquei o velho truque de relaxamento á dois. Solicitando que todos se despissem, Em duplas teríamos que massagear o parceiro. Habilmente deixei a fabulosinha sem par e fui fazer o exercício com ela. Bunda maravilhosa. Xavasca também não ficava atrás. Macia sedosa e com uma gulodice infantil. Creio que fiz gozar na minha mão. Gozo longo, profundo que a fez cair de joelho batendo a testa no meu pau. 

Depois da nona aula, despreguei a mitológica na praça.

Atrás da catedral.

Do lado da delegacia e dentro do coreto.

Três vezes cada. 

Copulei até tirar sangue.

Em agradecimento a liberei de nos pagar o convite.

Ela se despediu  dizendo se apaixonada. Cativada e que seria somente minha. 

Dias seguinte estava em outra cidade e com mil histórias para contar.

— Você prometeu e não cumpriu. Agora o meu marido vai dar um jeito em você!!

Vi o maridão tremer.

Balançava a arma.

Tilintava olhando para a mulher

Estremecia imaginando o que iria fazer comigo.

… e uma miríade de baratas fugiu pelos ralos. Da cozinha e banheiro saíram milhares. Em segundos cobriram o chão da sala.

A Incrível de Procópio não se mexeu, mas o maridão entrou em desespero.

Largou a arma e saiu correndo gritando.

Peguei, me livrei de algumas baratas que entraram em meus ouvidos e calça, apontei para a fabulosa e ira atirar na testa dela. Ela abandonou o recinto com um raio.

 

Chamei a síndica e dei um escândalo: milharesdebaratasemminhacasavocêprecisafazeralgosenãochamoapolíciaeoaquieagora

Baratas espantadas.

Fizeram um ninho em meu armário.

Depois de um banho tomado. Duas aspirinas. Fui reclamar com vizinho debaixo. Pedi ressarcimento e um valor alegando dano moral, físico e espiritual.

Um escarcéu no hall. “Baratas? Sabe o que é isto?”.

Um esparramo na frente do apartamento da síndica. “Tem que fazer alguma coisa!!”.

Não ter dado queixa nem nada, deixou os dois do quinto andar em suspenso.

O maridão veio me pedir desculpas e implorar que eu não fizesse nada.

Fiz.

Pedi uma gulosa dele e o condomínio pago por um ano!

Uma noite mal dormida

Mulheres

Para Amélia, sou uma piada enquanto para um mendigo, uma carteira.

Para Bernarda, um desejo, como para pai: um prejuízo.

Para Cintia, um demônio enquanto para a ex-noiva, uma vaga lembrança.

Para Dinorá, meiguice como para o diretorzinho, obsoleto.

Para Eunice, frágil enquanto para a vizinha, cruel.

Para Fabiana, uma rocha como para o avô, era um doce.

Para Gertrudes, gargalhadas enquanto para o primo, fel.

Para Hercília, farsante como para o porteiro: um peso morto.

Para Inês, uma boa pessoa enquanto para o primo de Laranjal, a decepção.

Para Julia, gênio enquanto para o amigo, um ateu.

Para Laura, um parceiro como para o amor-da-vida, uma luz.

Para Maria, era o podre que o dedo apontava como para o colega de Teatro, um exemplo para não ser seguido.

Para Nair, só tinha volume como para o ex-cunhado não tinha jeito.

Para Olívia, neutro enquanto para a irmã: o céu, a água e o ar.

Para Poliana, intenso enquanto para a velha professora, um mentiroso.

Para Quitéria, um fodido como para a avó, uma moça.

Para Renata, uma fuga como para a mãe: ainda uma criança.

Para Sílvia, uma brasa enquanto para a tia falecida, era solitário infeliz.

Para Thais, sagrado como para síndica, óbvio.

Para Úrsula, exótico enquanto para prima da prima da prima, com pouco gás.

Para Vitória, fresco como para o irmão do segundo ex-cunhado, não tinha cheiro nenhum.

Para Xênia, sincero como para a Samira, não mais encantado.

Para Zulmira, um porto seguro enquanto para a ex-futura-mulher, uma pamonha.

Sonhos de uma noite de verão

14 de novembro de 1992 – Sábado

Depois de uma temporada fracassada com “Sonhos de uma noite de verão”. Não estava para muita conversa. Do nada chegou Juan com aquele jeito enjoado de malandro.

— E aí?

— Não tô pra papo, pode sentar e beber … — Não disse nada, pediu um chopp.

Bebemos o bastante para cantarmos: “Andança”, “Trem das onze”, “O samba do Arnesto”, “Saudosa Maloca, enfim de tudo.

Acordei em casa e com o Juan me sorrindo.

Senti como a minha cabeça tivesse a Filarmônica de Berlim

Tentei levantar. Tudo dói. Ressaca moral chegando.

— Que houve?

— A gente estava numa legal. Cantando e rindo à vera. Você contava historia muita engraçadas. Foi chegando um povo. Daí , você organizou um coral. Cantamos “Travessia”. Do nada , começou a implicar com um camarada. Cara que estava na dele. Você gritava que ele tinha desafinado. O carinha percebeu que o tempo podia fechar, e foi saindo á francesa. Você foi atrás dele e deu um murro na costa. Ele se levantou, não queria briga. Saiu saindo. Você deu uma voadora nas costas dele. O Carinha foi ligeiro, caiu e levantou. Ele te levantou do chão e pediu para parar, você deu uma joelhada no meio dos culhões dele. Aí o cara te deu dois murros na boca e você caiu de cara no chão. Desmaiou.

— E?

— Eu te trouxe pra tua casa. No caminho você veio dizendo que me amava

— Rolou?

— Bundinha de amigo é sagrado.

Manual do futuro egresso

Conto 21 – 1986

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A caminhada é a seguinte:

— Coxinha é policial. Meganha também.

— Nem antes, nem depois e nem no dia de visita: não espoca a silibina.

— Se der e tomar vai virar corcunda.

— A mulher do outro é outro.

— Raio é um amontoado de celas.

— Não se come com a boca aberta.

— Olho é vista. Boi é privada e a Lecy Brandão é a nossa rainha!

Então: foi isto que ouvi.

 

Imagine que você cai muito antes da permissão de visita conjugal.

 

É isto que você deve ouvir quando entrar no Limbo.

Não importa se o comparsa caguetou ou se você é até inocente: está trancado e tem que sair vivo!

 

Então anote:

— Ande sempre de cabeça baixa, perto da parede. Mostre consideração sempre.

— Para manter os dentes firmes, cuide da própria vida.

— Faxina é o madona do pedaço. É aquele que manda chover e manda secar.

— Se o Faxina mandar pular: somente pergunte qual altura que quer.

— Visita dos outros não tem rosto, nem cheiro e nem conversinha;

— Se deve: pague. Não tente dar um batatada em ninguém.

— Se devem: peça autorização do Faxina para cobrar.

— Paulinho da Viola faz samba de raiz.

 

A sobrevivência dependerá para quem você for dar.

Entrando raio, não seja currado pelo primeiro que aparecer. Com certeza será um teste. Se der para qualquer um, dará para todos e não terá respeito. Faça doce, resista e distribuía algumas chulapadas pela geral. Não grite nunca! Leve os seus tombos com dignidade.

Tenha certeza: vai apanhar e será rodado por dois ou três de sua cela. Depois de restabelecido e suturado, vai ter que correr atrás do ar.

Preste atenção naquele que não tentar nada com você.

Naquele que parece nem estar se divertindo com o seu arrombamento: este é o galo.

É o Faxina!

É aquele que pode fazer o seu limbo mais suave.

Observe feito coruja.

Respire o ar dele.

Deixe ele ver você.

Um dia, na hora da xepa, ofereça a sua sobremesa e peça um particular.

Dias depois será chamado para o parlatório.

Chegue à japonesa, passos leve, não encare e fale baixo.

Fale firme.

Fale como homem: quero ser só seu.

Ele vai pensar alguns dias.

Resista com moderação a outras investidas.

Um dia: ele chama, abençoa e manda você para a cozinha dele.

Você é dele.

Você agora está suave.

 

— Prefira sempre de ladinho. (Doerá só no começo).

— Para ganhar o coração do seu Faxinão, nas primeiras vezes, finja a dor que realmente sente. Finja alto. Banque o cabaço.

— Na lua de mel: gema muito. Urre, diga palavras de amor e agradeça a Deus o homem que tem.

— No casamento: gema muito mais. Agradeço ao seu pai, à sua mãe e a todo mundo que estiver assistindo.

Siga a faixas ou orientações importantes para um bom viver:

— Esteja sempre cheiroso, bonito e oleoso.

— Agachamentos fortalecem os glúteos.

— Mastigue cem vezes cada garfada, além de facilitar a digestão, fortalece os maxilares.

— Exercite a embocadura sempre.

— Açúcar refinado e farinhas brancas provocam secura, acnes e aftas. Evite.

— Mantenha a sua boca sadia e a alma gulosa.

 

 

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Almoço grátis não existe.

O seu Faxina usará e lambuzará. Vai cozinhar para ele e para quem ele mandar. Seja criativo na mesa, no beliche e no banho.

Lave os pertences dele com cuidado. Separe as peças e faça o pré-tratamento das manchas. Roupas brancas e de cores claras devem secar ao sol e as de cores brilhantes à sombra;

Hidrate os pés e as mãos a cada cinco dias.

Maquiagem discreta e unhas bem aparadas.

Somente base é o ideal

Suas coisas são do seu Faxina.

O que você trouxe é dele.

O jumbo que sua família trouxer é dele.

O que ele der, guarde com carinho e ternura. Certamente irá para o próximo preferido.

As coisas dos outros não são suas

Nos dias de visita: use as roupas do mundão.

Apresente o seu Faxina para os seus familiares.

Convide ele para ser padrinho de um filho seu ou sobrinho.

Deixe ele beliscar a sua mãe ou irmã.

Incentive que ele zoe com o seu irmão ou cunhado.

 

Fantasie que um dia de sol quadrado, todos ficam sabendo que há dois césios no raio 2: Nego Doido e Olhos de Gato.

Nos corredores, comentam que eles os barbarizaram: fizeram os meganhas dançar a La Bamba. E só para azucrinar, com os frangotes no porta-malas, deram um role com a viatura e a enfiaram contra o muro.

— Deu até no Aqui e Agora.

Viram lenda.

Pense que querendo subir no conceito, o seu Faxina oferece uma comilança para os considerados.

A cozinha fica molhadinha.

Jurema decora o refeitório.

Abigail desempareda pratos e os talheres do mundão.

Fernanda prepara um pernil de carneiro no limão.

Cláudia destila uma maria-louca com maracujá.

E você faz os seus mundialmente conhecidos quindins com açúcar mascavo.

Com certeza eles se fartaram. Pode até ser que o Nego Doido fique de olho grande em você.

Para fazer os pensamentos voarem, você apresenta uma versão musical de “Entre quatro paredes”.

Bucho cheio, coração tranquilo, eles devem aplaudir de pé.

Vendo o sucesso o seu Faxina até te lasca um beijo na frente de todos.

Naquela noite ele vai aquecer você.

Dias depois, Nego e Olhos de Gato fazem uma presença para a diretoria: uma pacoteira de mariajoana e um estojo escolar cheio de maiquelqueine.

Seu Faxina se afoga na bagaça.

Quando submergir, o Nego Doido pode pedir você em namoro. O Seu Faxina empresta por quatro dias. Vão ficar num individual de mel em uma cela.

No primeiro dia: vão cheirar e ele lhe conta que tem saudades da sogra.

Brincam de pega-ladrão.

Ele brocha e dormem de conchinha.

No segundo dia, cheiram e lhe conta que tem medo de escuro.

Passeiam de mãos dadas pelo pátio.

Jogam truco.

Ele brocha e vocês só beijam na boca.

No terceiro dia, ele cheira e lhe conta que tinham inventado a história dos coxinhas. Conta que foram presos depois de estouraram uma menina de quatro anos.

Ele brocha e você fica com dor de cabeça.

No quarto dia, cheira e pede que fizesse ele. Faz e volta para a sua cozinha. Não conta para ninguém: Rato linguarudo é pego na ratoeira.

Dias depois o seu Faxina dá falta da revista com a Roberta Close.

Suspeitos de sempre e a cozinha apanham. Não encontraram nada.

Começam a desconfiar deles mesmo. Reviram e nada.

Desconfiam dos recentes. Reviram as outras celas e acham nas coisas no Nego Doido.

No parlatório, depois dos telefones, choques de espiriteira e mergulhar na privada: Nego Doido desmaia.

Tapas depois, o Doido acorda contanto tudo: que matou o Aberlado Barbosa, o Seu Madruga, a menina de quatro anos e que gostou do seu quindim. Nega ter roubado a revista.

No venha cá com o Olhos de Gato. Antes do primeiro tapão, conta tudo, menos da revista.

— Os erros passam, a verdade fica — diz o seu Faxina.

Olhos de Gato confessa.

Nego Doido chora.

Enforcam os dois com uma tereza de crochê que você fez.